Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Desabafo Tardio” (29/08/2014)
Será que seríamos felizes se fôssemos mais simples
Sem a consciência de tudo que podemos
Sem a consciência de nossa liberdade
Sem consciência do nosso fadado fim
Será que seríamos mais livres
Se saíssemos sem ambição
Todo dia até o mesmo trabalho burocrático
Que sustentasse nossa vida fora dele
Nosso marasmo em frente a televisão
Nossos suspiros levados pela correnteza
Nossa casa sem saídas
Por que essa ideia de grandiosidade?
Por que não podemos deixar os dias passarem naturalmente?
Deixar a vida a cada noite apaziguar um pouco mais nossa alma
Deixar o tempo ser mestre do destino
Ir e vir nesse mundo sem escalas e sem sinais
Operário da humanidade, uma estagnação da evolução
Poder sentar a mesa e sentir-se inteiro sem nada que lhe falte
Sem nada lá fora que precise para se sentir bem
Uma vida humilde sem muitas regalias
Com um canto para dormir e outro para rezar
Com um dia para sair e muitos para ficar
Que possa respirar sem culpa de algo que esqueci
Uma vida não para marcar, apenas para viver
Divido-me entre a dádiva e o cansaço que a palavra me traz
Toda essa percepção sensível do mundo
Toda essa percepção do que sou e não gosto
Todos os sonhos que construo e não vivo
Todas ideias que não tenho coragem de ir atras
Todo potencial mal aproveitado
Essa vontade de se perder no supérfluo, no cotidiano, no banal
Vejo tanta felicidade em meus desejos
Mas em algumas madrugadas me pergunto
Será que seria mais feliz se desistisse
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Meu jeito” (24/08/2014)
Machuca o que está por fora
Arranha, magoa, maltrata
Que o tempo enrugue
Que o tapa arda
Que a palavra chore
O que importa o que apenas parece?
O que é de dentro eu mesmo bagunço
Tenho direito de dobrar meu coração
E amarrotar toda minha alma
Fazer daqui minha eterna aventura
Sem limites sociais
Sem regras de convivência
Uma simples liberdade
Que não aparece, mas existe.
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Questões de Gênero” (18/08/2014)
Todo homem é igual
Não importa o tamanho do coração
Barba, cabelo ou bigode
Tenha a inteligência que for
Vira a cabeça para mini saia
E calça branca até no varal
Todo homem é igual
Ataca quando se sente acuado
Vulnerável despeja atrocidades
Diminui os sentimentos do outro
Magoa antes que o atinjam
Sem se preocupar com o final
Homem é tudo igual
Diz amar antes de entender
Atropela corações pelo caminho
Abandona alma sem saber que ocupou
Faz uso das palavras, não dos significados
Aprende a não olhar para trás
No mundo onde tudo é igual
Sentir também vira estatística
Muitos sofrem pelos votos de alguns
O indivíduo se dilui no todo
Sem chance de defesa
Os erros falam mais que qualquer acerto
Toda unanimidade é burra
Só posso defender a causa
Dos que reparam no olhar e no sorriso
Dos que oferecem conversa e não romance
Dos que não prometem felicidade,
Mas também não chamam atenção
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Indiferença Urbana” (12/08/2014)
Garoinha fina que não enche represa
Prédios acinzentados que tem coração
Cidade da multidão vazia
Sinto que chora sem colo que te acolha
É mais frio dentro do que fora
O asfalto cobre mas não esquenta
A cortina branca abre e o Sol é fraco
As pessoas te ignoram
Você vela solitária tuas tragédias
A natureza entende o que o humano falha
E no fundo da madrugada gelada
O corpo tem uma ideia, mas não a alma
Se desfazerá em migalhas de concreto
Enxurradas espalharão os seus lixos
Fumaça entupirá suas veias
Enfartaremos em algum horário de pico
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Enquanto não chego” (07/08/2014)
Dorme agora meu bem
Teu amor já está em casa
No pé do teu ouvido
Sussurrando o amor que não lhe cabe
Se você pudesse ouvir entenderia
O espaço que você preenche em mim
Você é todo meu futuro
Já passa da meia-noite meu bem
Por hora a torneira da pia pinga
Meu pai ronca em seu quarto
Meus olhos pesam nesta folha de papel
As marcas da espera
Por um amanhã mais próximo de nós
É como se estivesse no meu passado
Vivendo o que já não sou
Você faz falta meu bem
Porque faz festa
Faz colo, faz cafuné
Faz felicidade e torta de limão
Faz eu dar risada e me faz sonhar
Faz de mim alguém melhor
Faz tanto que fazer falta faz parte
Você nunca me deixa
É pedaço que a alma absorveu
Sonha meu bem
Que não demoro e te encontro
Sei o que queremos
Sei que acordaremos neste dia
Sei que será breve pelo tempo
Sei que será longo pelo sentimento
Mas por enquanto dorme
Que eu zelo um pouco mais
O sentimento que chamamos de lar
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Trabalho” (06/08/2014)
Como é difícil não reconhecer um rosto
Nem estou falando de um amigo
Alguém que não te olhe torto
Alguém que tenha um sorriso sincero
Um porto onde exista algum espaço para ser livre
Um olhar que não saiba seu sobrenome,
Mas esteja disposto a escutar
A obrigação, o desafio, o crescimento,
Não surtem efeito diante o mal estar da alma
Eles resistem por um bem que desconhecem
O que fazer quando só sobra espaço para sobreviver?
Não quero mais favores
Chega de estar nos comentários alheios
Ser peso, ser pedaço, ser carregado
Prefiro ser apenas só
O olhar sem confiança
A companhia sem laços
O fim do dia que tudo leva,
Sem nada para esperar do amanhã
É um deserto de sentimentos
Onde qualquer verdade revelada já gera arrependimento
Andar eternamente no limite entre ser e parecer
Talvez a falha seja minha,
Não saber viver só o burocrático
O profissional sem o humano
Queria contar qualquer bobagem
Queria contar que não estou conseguindo ser completo aqui
Me desculpar por ser ingrato diante a chance
Mas também poder ser livre de sentir
Encontrar um jeito de respirar que não seja pela palavra
Encontrar vida mesmo que não seja no outro.
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Nicotina poética” (29/07/2014)
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Crer, sentir, viver” (25/07/2014)
Sou feliz
Crer foi meu primeiro sinal
Palavras não me faltam
Mas sim a coragem de dizer ao mundo
O temor do olhar alheio
Sobre tudo que nos faz bem
Nos vestimos de problemas
Para proteger a alegria
Passamos a vida a buscar
E disfarçamos quando podemos sentir
O que a felicidade ofende….
Por que o sorriso não contagia….
O melhor de nós fica entre paredes
Deixamos de brilhar para o mundo
Não irrita querer ser feliz
Incomoda chegar lá
Mas a existência deste lá
Não deveria ser motivação para seguir?
Sou feliz
Sentir foi meu segundo passo
Uma espécie de liberdade
Remar contra a corrente
Descobrir-se no impossível
Ignorar o senso comum
Abraçar quando me disseram para fugir
A perda de fé também quer adeptos
Eu sei porque também não acreditei
Apenas a tentativa de ser feliz
É uma ameaça a todos que ainda não conseguiram
Nos dividimos entre os que tentam
E os que se irritam com o sucesso destes primeiros
Sou feliz
Viver foi meu melhor gesto
Minha palavra não pareceu mais solidária
Somos vítimas de uma matemática improvável
Há muito mais dores atrás dos olhos
Boa parte é mais costume que realidade
Mesmo assim eu apelo para que não se conforme
Todos podem e tem o direito de ser feliz
Não queira, não seja menos do que isso
Eu gostaria que a alegria fosse tratada melhor
Sem inveja ou sem tanto descrédito
Não omitir seus meandros mais lindos
Mas eu sei, o choro só quer um semelhante
Não quero trazer apenas uma promessa
Então trago duas palavras
Encontrei-as no meio de minha melancolia
As primeiras indicações de uma saída
Não acreditei em mim, acredite em você
Sou feliz
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Guardados” (16/07/2014)
Cada palavra marcada
No papel envelhecido
Tem nome e sobrenome
Não sei se foram raras paixões
Sei que foram as minhas
Sei que sou produto delas
Meu passado está escondido
Até mesmo de minha memória
Não sei o que encontrar na cômoda
Num canto discreto de minha alegria
Não sei o que guardar de minhas tristezas
Parte de mim está numa caixa de sapatos
Ali jaz muito do meu romantismo
O mesmo que não preciso mais esconder
Amei mais palavras do que pessoas
Mas elas acabaram mudas
Uma solidão que não se calava
Não sabia ser o que sentia
Amei na proporção de vidas inteiras
Reconstruí nítido ao toque meu futuro
O tempo consolidou as fronteiras da minha dor
Tirava do coração pedaços completos
Vi a perfeição em tudo que beirava a realidade
Findaram como folhas de outono meus romances
Lá no fundo dessa bacia de almas
Me reconheço sem querer voltar
O que aprendi me faz feliz
O que senti me faz inteiro
Do que ficou apenas a certeza
Minha gaveta amou mais do que eu
Ass: Danilo Mendonça Martinho