“Acomodação de Alma” (21/10/2014)

Recosto minha cabeça na parede enquanto espero
Perco meu olhar de tudo que acontece em minha volta
Deixo escapar sem remorso os minutos que faltam no dia
Lá se vai mais um passageiro que quase não se conta
Há uma impressão de estagnação neste agora
Talvez seja a falta dentro de si de um sonho concreto
Só que é normal passar por lugares não familiares
Locais onde aprendemos, mas jamais ficamos
O corpo tem sentimento, e sentimento tem lar
Todos nós sabemos quando estamos em casa
Tudo para mim neste momento é extremamente normal
O suspiro que alivia a insatisfação que faz parte
A esperança de que a mudança esteja sempre na próxima esquina
A compreensão que a vida tem um tempo, geralmente, bem certo
Por um milésimo de segundo o metrô cruza a ponte
O olhar desconexo cabisbaixo vê a chuva refletida no asfalto
O coração voluntário reage e me escapa um sorriso
Uma certeza sem razão que tudo vai ficar bem

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Porto” (20/10/2014)

Foi como chegar de uma viagem sem precisar partir. Descarregar nossas roupas, nossas coisas e nossa vida. Tons de felicidade que não conhecia. Não era simplesmente o sorriso, nem era o abraço, era algo mais interno, completo e pleno, um encontro com o futuro, a sensação de viver um sonho, de ser feliz sem nenhum esforço. Estávamos em casa, pela primeira vez. A noite não era a mesma, as luzes ligadas davam um tom de permanência e ouvia o chuveiro ligado do sofá, via a cidade no horizonte e ajeitava nossos pertences, arrumamos a cama e na penumbra da sala olhava pela janela todos meus próximos dias. Faz alguns dias que não me sinto bem, que desenvolvo um pouco de frustração e melancolia, que a realidade me fatiga e me arrasto, o alívio me era raro. Mas quando chegamos meu coração se encheu de esperança, viu todos motivos para seguir. Guardei na minha alma o lugar que poderei fechar os olhos e lembrar toda vez que precisar fugir. Amor, somos um lar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Notícias de um passado” (17/10/2014)

Foi em uma viagem sem propósitos e com uma noite mal dormida que se encontrou preso no banheiro. Do lado de fora sabia que já se resguardava acordada a mulher de qual a razão queria distância, mas que o corpo e suas necessidades afloradas pela manhã lhe atacariam sem forças para evitar. Por um mero instante esperou e conscientemente deu descarga nos seus pudores e teve primeiro a certeza de ter chamado atenção, para depois sair cheio de libido e encarnar os sonhos que nem eram seus. Seria uma escolha de um caso de uma noite que provavelmente não afetaria em nada teu agora, mas foi evidenciado claramente a marca de uma vida naqueles lençóis, uma dobra, uma fenda, uma decisão profunda, uma construção de caráter, um tornar-se, uma mudança.
Nesse mesmo lugar, tempos depois, alguém vulnerável, disposta a deixar, por um instante, seus princípios, gostos e vontades. Pronta para ser sugestionada a aceitar a ideia de que o diferente era a saída para seus pensamentos ligados a quem não estava ao seu lado. A proposta de experimentar uma alternativa para ser feliz. Deixar tomar seu corpo meio apagado pela tristeza e quem sabe poder se esquecer enquanto o outro pudesse se enganar. Num acordo velado de almas que precisam, e até uma mentira serve para sobreviver. Um dia a verdade estaria ali como a única coisa que sobraria, uma dor que talvez até não fosse tão grande já que não houve entrega, mas, ainda assim, uma dor suficiente de envergonhar olhar na cara. Aqui não saberia dizer o tempo que isso duraria, mentiras tendem a ser altamente autossuficientes, encontrando palavras e meios de seguir de uma forma cômoda e imperceptível. Essa lembrança tem contornos mais fortes de mudança, e talvez uma que te levasse para sempre longe desta agora tão mais real, tão mais verdadeiro, tão mais completo. A verdade é que mesmo com todo este potencial, aquilo jamais pareceu uma opção.
Há muitos outros momentos por aqui. A garota que comentava com amiga, e nunca teve a coragem de perguntar o que era. Aquela pergunta inconveniente no ônibus vazio. As pessoas que te acuaram e as quais você nunca prestou atenção. No fim deste tempo sempre beira uma única coisa, consciente ou não, emoção ou razão, tudo foi sempre uma escolha, e escolhas são o puro resultado do que somos, ou éramos. As notícias que te trago jamais poderiam fazer parte de quem você é. Siga em paz, pois tudo aqui já está.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Até o fim” (28/09/2014)

Me sobrou um último pedacinho de papel. Espero que seja o suficiente para nós dois. Estou espremido no canto da cama, sua marca está ao meu lado e sua fotografia me sorri, em breve seremos eu e você, sem precisar fechar os olhos. Me avisaram o quanto pode ser difícil e não acredito que estaremos a salvo das dificuldades. Só digo que não importa, quero viver tudo ao seu lado, das coisas que completam nossa vida aos sentimentos encolhidos em uma sobra de caderno. Nunca sei o que dizer quando um deles acaba, mas toda brecha de palavras é bom preencher com amor. A noite logo me vence. Acho que vou aproveitar para dormir no pé da cama porque de vez em quando é bom. Tem muito mais silêncio nessas madrugadas que não durmo, muito espaço para sonhar. Precisaremos de tempo, eu e você, para ocupar todos aqueles cômodos com nossos planos. No fim ainda sempre cabe e até sobra o suficiente para não conseguirmos parar. Pensei que neste retalho colocaria um amor do tamanho do mundo, mas descobri que somos extremamente simples. Um abraço, um olhar e um sorriso. Um pedacinho de chão sem dono. Um velho bloquinho com a última folha em branco. Não precisamos muito para explicar nosso encontro. A verdade sobre o nosso amor e outros por aí, é que sempre foi assim.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Antigas ilusões” (17/10/2014)

Já não me importa o sentido que vai seguir o trem
Teu rosto recostado contra o vidro será desconhecido
Meu destino tem outros caminhos agora
Onde a descoberta já não está do lado de fora
Belezas me passarão os olhos como paisagem
Abraços e beijos me são apenas lembranças
Meu coração sabe, pela primeira vez, para onde voltar
A felicidade só precisa de uma vez
Será por dentro de nossas almas que construiremos
Nossos olhos, corpos e gestos fizeram sua parte
Seremos agora um para o outro
Há tanto espaço quando se juntam vidas
Setenta e dois metros quadrados de sonhos
E cinco janelas para o horizonte
Pelo menos aqui não preciso de mais nada
Quem diria que quando pegava outro vagão
Diferente das mulheres que me chamavam atenção
Sempre estava no lugar certo

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Desapego do Destino”

As coisas não são como deveriam ser
O dever é um atributo altamente humano
A necessidade de se manter a ordem
Um plano traça sonhos, não crava pedras
A vida reinventa-se na menor das distrações
Por que não mudar também?

As vezes se adia tanto encontrar um amigo
Ele nos encontra no meio de uma rua
Que ninguém deveria estar
Estar em algum lugar é muito mundano
Todo lugar é para se estar
Todo dia foi feito para se encontrar

Tenho a total impressão que não sei do que preciso
Uma leve ideia para onde ir, a certeza de querer
Para não me sentir perdido fiz acordos
Um sorriso sincero a qualquer hora
Imaginar por alguns minutos meu futuro
Lembrar de alguém sem distâncias
Saber que as coisas são independente de dever
E por fim, se faltar uma companhia
Que o vento possa ser nosso abraço

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Sobre o que não passa II” (14/10/2014)

Sinto ser eu a lhe dizer, mas o tempo não vai esquecer a sua dor. A marca debaixo da pele é perfeitamente visível no espelho. Não há como apagar o que faz parte de quem você é. O sentimento tem intensidade, tem gosto e algumas vezes até mesmo forma, mas não tem cura. O tempo só pode te dar distância e por mais que possa ficar longe daquele momento não há como separar de si. Somos profundamente entrelaçados as nossas escolhas e somos, em maior ou menor quantidade, os seus resultados. A dor é um componente da alma humana que só podemos equilibrar. E aqui, antes que desista de ouvir as minhas palavras eu te aviso: há sim uma escolha. Você pode deixar a cicatriz te guiar por completo ou fazer dela apenas uma parte. A lembrança pode ser um tormento ou apenas um suspiro lamentando o que já não é mais. Saber que não há nada que te preencha por completo, não importa o tamanho do que sinta, a vida tem espaço para tudo. Sinto em te dizer que sempre terá essa dor, mas me apresso em te dizer que lhe cabe uma felicidade ainda maior.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Perspectiva” (10/10/2014)

Tua esperança é genuína
Muitos só esperam por esperar
Porque é certo sonhar com algo melhor
Revoltar-se pareceu um sinal de consciência
Mas as pessoas só querem mudar os outros

Só que você, mesmo vendo nos olhos do futuro
Acredita que tudo ainda vale a pena
Uma alma que se eduque é um bem para vida
O valor de si você vê no sucesso do outro
Pessoas que na medida certa podem mudar o mundo

Na tua paisagem há um Sol nascendo
Sob um povo de posse de um novo ideal
O sorriso de uma inocência renovada
A esperança que só nasce nas grandes almas
O mundo podia ser mais vezes pelos teus olhos

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Na falta de rima” (29/09/2014)

Os poetas contemporâneos escrevem seus sonetos
Milhares de sílabas poéticas calculadas
Rimas de um vasto vocabulário
Jogos de significados em meias palavras
O poder de sintetizar nas entrelinhas de um verso
Dizer mais através do silêncio

Eu sigo sem algum limite determinado
Algumas vezes prosa e outras, poesia
Fazendo uso de toda e qualquer palavra
Talvez sendo o mais comum delas todas
O alívio do peito não me pede métrica
E talvez por isso não tenha espaço no mundo

Somos aquilo do que não podemos fugir, não é mesmo?
O sentimento ganha formas estranhas
Só que no final do dia, depois de cada verso
O que importa se é inspiração ou desabafo
O coração só não que ficar calado
Com sorte encontrar uma alma que responda

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Despedida” (16/09/2014)

Me apaixonei pelas entranhas do sentimento
Pela diferente perspectiva dos seus olhos
Da entrega plena as mazelas de querer
Do tempo indeterminado dos amores e das dores
O mergulho pelos pesares em suas profundidades
A distância do mundo em minhas particularidades
Há uma parte de nós que sempre será extremamente só

Querer estar sozinho não é um problema
Mas encontro muita coisa fora do lugar
Coisas que chegam até a flor da pele
Percepções fora de qualquer proporção
Uma correnteza que não leva, puxa sem cessar
Encontro-me com inúmeros cenários familiares
O mundo onde tudo ficava aquém

Chorei neste chão, me apoiei nessas paredes
Tudo me parece muito tempo atrás
Aqui aprendi a ser livre para poder ser feliz
Meus cantos mais escuros me ensinaram a paz
Minhas recorrentes lamentações deram lugar a fé
Alguém acreditou em mim antes que eu pudesse
Então depositei a esperança em mim e nos meus desejos
Com o tempo, fiel à minha alma, a felicidade me encontrou

O caminho para fora de si não se esquece
Também não é fácil deixar o que sempre fomos
Deixo-me abalar pelos incômodos da rotina
Martirizo minha insuficiência nas conquistas
Dramatizo o cotidiano com novos enredos
Até hoje descobrir que não preciso mais ser
A palavra não precisa de dor para existir

Melancolia, companheira de longa data
Sei que ainda venho te visitar
Mas jamais novamente para ficar
Preciso muito mais da minha paz
Preciso caminhar com meu peito leve
Aproveitar todo sorriso que posso
Sinalizar para que a felicidade saiba para onde voltar
Entender que não preciso mais estar aqui

Ass: Danilo Mendonça Martinho