“Tempo e Espaço” (02/11/2015)

Falamos do tempo, mas não tenho a certeza que sabemos que ele passa. O hoje parece tão natural e repetitivo que o agora parece maior que todo passado. Como este caminho pode ser mais rotineiro do que aquele de todo resto da minha vida? Será que é mais impressão do que vai ser daqui para frente que preenche o espaço do amanhã com as certezas do hoje? Olhar para trás coloca as coisas tão distantes de nós, como se houvesse uma separação real do que fomos.
Desci as escadas um pouco mais devagar, percebendo como fazia aquilo sem sentir. São trilhos ou trilhas que percorremos? Penso que alguém já saiba onde tudo isso vai parar. O que pode fazer nossa noção de começo, meio e fim um pouco deturpada. No paradoxo de que nada pode caber num dia e não podemos deixar tudo para depois. O que é sonho, o que é esperança e o que é realidade?
Pensei que tudo passaria rápido demais para perceber. Que alguns truques da razão me fariam acreditar que faltava pouco para tudo acabar. Os meses passaram, meu redor não parece muito diferente da promessa. Meu interior não resolveu seu quebra-cabeça. O tempo vai me alcançar e não poderei dizer como cheguei até aqui.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Disfarce” (01/10/2015)

Falo chuva
É onde me sinto livre
Se a alma não cabe ao menos dilui
Lamentamos a procura de salvação
Essa consciência transformou tudo em suspiro
Não tenho coragem de assumir minhas insignificâncias
Por isso peço tempestade
Meus erros cresceram em mim
Eu me diminui diante o mundo
Ou não cresci diante a idade
Apelei para promessas
Mas a mudança pode só depender de mim
Tenho medo de pedir respostas
Então pode ser garoa
Sem pressa e sem vontade
A palavra sempre carrega
Quantas viagens para levar isto daqui?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Leme” (25/09/2015)

Todo barco tem norte
Todo mar tem tempestade
Todo porto é passageiro
Toda rota tem desvio
Toda estrela é guia
Todo amor é náufrago
Todo destino tem sonho
Toda maré tem vontade
Todo encontro é tesouro
Todo vento tem favor
Todo amanhã é incerto
Todo capitão tem saudade
Todo coração levanta vela
Toda alma rema
Toda viagem é para voltar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Entorno de alma”

Meu sonho é dizer adeus, mas como ser livre?
O peso dos dias me faz pedir aos céus o que nunca precisei que fizessem por mim
Tudo que passa é tempo, ou pode ser vazio?
É alguma lição ou para testar o limite?
Não espero respostas apenas saídas
Estou agindo dentro da inércia
Quem sabe a ilusão do movimento faça a vida caminhar
A verdade é que minha alma precisa de provas
Falta a coragem de abandonar o que é seguro
Falta a vontade para aguentar o que pode dar certo
Guardo as forças pelo que ainda acredito
Será que caibo dentro da fé?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ensaio sobre incerteza” (17/08/2015)

A liberdade é algo perdido dentro do ser humano. Estamos presos não a nossa vontade, a nossa consciência, mas ao julgamento dos outros. E quando não há quem nos julgue, olhamos para o céu a procura de um sinal que aprove nossa decisão. Cada pedaço do que fazemos transformado em condenação ou absolvição. Nada pode simplesmente ser. Aos nossos queridos tentamos nos justificar. Contamos nossos meandros, medos, caminhos, conclusões. Ouvimos todo conforto que uma palavra pode ceder, e ainda assim não é o bastante. Precisamos perdoar a alma. Rezo, todo santo dia, como rezo com força, com sono, distraído, em silêncio…..agradeço para não ser mal educado, peço quando na verdade espero que “ele” possa assumir a responsabilidade da minha decisão. Que possa dizer o que está certo ou errado e me evitar o trabalho de tentar por meus sonhos em prática. Que então me indique a direção para que assim me acabem as desculpas de não viver por não saber para onde ir. Posso não saber até onde vai sua fé, mas hoje, mais do que qualquer outro dia, percebi o quanto ela pode ser vazia se não começar em você mesmo.
O fazer é humano, e suas consequências estão longe de serem prêmios ou castigos. São apenas rumos que a vida toma. É fácil esconder nossas vontades por trás de outras, divinas ou não. Justificar nossa inércia como efeito, quando na verdade é causa. Saber quais serão todos desdobramentos de suas atitudes e após fazê-lo enxergar o depois como uma justiça natural da vida. Bobagem! Somos livres! Eu acredito em forças naturais que nos protegem, nos guiam, as vezes ensinam. Mas o que procuro para apaziguar minha alma e dizer que esta é a melhor solução, simplesmente não existe. A escolha é livre e existe dentro de nós, esquecida, esta mesma liberdade. Não há explicação para o que fazemos se não a nossa vontade. Da mesma forma não há como esperar uma permissão para realizar teu sonho. Não tem certo, errado, muito menos um julgamento diário dos seus gestos e pensamentos. Temos apenas um coração como termômetro dizendo o que lhe agrada, e uma fundamental liberdade que se começarmos a colocá-la em prática em favor dos nossos sonhos, eu consigo imaginar vidas incríveis. Não precisamos de autorização para nada, mas precisamos ter responsabilidade com tudo. Até entendo que o meio disso tudo seja confuso, mas a saída é única. Escolha, a vida é sua caso precise voltar atrás, mas não deixe de escolher.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O que as une” (14/07/2015)

Qual a importância da métrica para um poeta?
Será que apenas a uniformidade das palavras podem fazer um sentimento caber na realidade?
Ou será que contada em sílabas poéticas a dor não é tão grande assim?
São todas justificativas de uma ilusão
Não há como caber, nem diminuir
Somos apenas intensidades
As outras formas são apenas para distrair o espelho

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um verso de esquina” (04/06/2015)

O mundo é feito de esquinas
Não é mesmo Aldo Quiroga
Pois entre tantos contornos
Foi nascer aqui do lado
A poesia, sim ela mesma
Com nome e endereço
E até atividade comercial
Alimentando almas e corpos
Com palavras e pães
Sei que de pronto não leva a sério
Mas segue foto em anexo
Pois notícias perderam a fé
Eu mesmo confesso, duvidei
Na noite me pareceu miragem
Fadiga dos olhos sem pedras
O letreiro permaneceu além dos sonhos
A poesia estava instalada
Com data de inauguração
Toda vila carece de um poeta
Qualquer dúvida sobre meu lugar
Desapareceu por aquela porta
Sou neste aqui
Sou neste agora
Dobro a esquina pro resto da minha vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Paz de espírito” (04/06/2015)

Por que há tanta tentação no inconsciente
Nossa própria razão lutando contra
Para que tantos desvios
Por que seguir não pode ser natural?
A escolha sempre como esforço
Tudo como superação
Será que faço o que não me é de direito?
Ou o ócio escondeu minha vontade?
Que força é essa que nada quer
Te faz parar e te culpa mais tarde
Que voz é essa que te faz do avesso
Te paira sobre o sonho sem jamais agir
Te traz o desespero do tempo
Coloca em cheque todas decisões

Cansei das tuas propostas
Tenho um bom coração
Quero fazer do corpo uma paz
Que qualquer alma se sinta bem
Mas quero mesmo é liberdade
Para que nenhum pensamento seja ruim
Para vida fluir como inspiração
Não há nada que devo
E há um tudo que posso

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Vigília” (03/06/2015)

Fecho meus olhos e rezo
Talvez medo do fardo
Fé no que se é capaz

Rezo por último recurso
Pois já não sei carregar o corpo
E muito menos completar a alma

É mais humano confiar no outro
Isentar-se da escolha
Esperar a resposta

Mas não o faço por pilhéria
É apenas puro desencontro
Pois não sei onde enterrei a vontade

Sonho em intensidades sem razão
O quão estou distante de mim?
Qual verdade transformei em ilusão?

Rezo ciente do abandono
Deixo a esperança de minha causa
Para encontrar paz em algum outro lugar

Ass: Danilo Mendonça Martinho