“Mapa” (10/03/2016)

Minha esposa estava com dificuldade
De encontrar o endereço do céu
Sugeri a ela que ligasse para felicidade
Também pegasse emprestado aquela receita de mel
A vida pode ser uma fantasia vestida de realidade

Fiquei imaginando o GPS recalculando a rota
Pedindo para voltar duas vidas passadas
São 10 anos até o próximo caminho de volta
E a vida toda congestionada

Ela me disse que é para lá de São Mateus
Se tem santo no nome deve estar perto
Meu amor me jure por deus
Chegando por lá me vai garantir um teto
Que fique tudo pronto para aquele adeus

Não vai ter jeito
Vamos ter que pedir por direção
Alguém me disse para seguir dentro do peito
Foi a paz que me encontrou no coração

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Os olhos gentis” (04/03/2016)

O olhar gentil levantou e esfregou-se o máximo que pode para enxergar o dia. Embora tarde permanecia escuro, era uma grande chuva cinzenta que o acordava. Então o olhar gentil estendeu a mão, sentiu seu gosto, sentiu seu cheiro, recebeu a chuva de braços abertos como fosse um dia de Sol. Com paciência ferveram a água e um pouco perdido no tempo assistiram a bolacha se desfazer em mil pedaços no fundo da xícara. Os olhos gentis não trataram nada naquela da manhã como um desastre, era muito cedo para desistir, e no fundo do chá encontraram a possibilidade do novo, do improvável e deram um gole na esperança. Saíram de casa sem o sufixo e ficaram na espera……do sonho, do amigo, do abraço, do desejo, da mudança, da vontade, do destino e do ônibus. Tudo que se espera demora um pouco mais e os carros começaram a jogar água para calçada. Com os pés molhados o olhar gentil titubeou, mas escondia preocupações mais profundas e não havia espaço para rancores. Deu sinal, a vida parou, subiu e seguiu. Toda vez que se caminha pode ser para qualquer lugar, mas invariavelmente só partimos com lugar certo, que com muita sorte pode coincidir com o que queremos. O solhos gentis pairavam sobre aquele mesmo lugar que viram milhares de vezes antes sem jamais pesar a rotina, a nostalgia de tudo que já não era, a alegria esmaecida em paredes sem cor, memórias de um corredor vazio, um agora tão inerte quanto o passado. Não fosse a lágrima iluminar o caminho, desfocar e colorir a realidade, os olhos gentis não teriam seguido mais nenhum passo. Encontrou um sorriso para abrir a porta, cumprimentar os amigos e até mesmo acreditar que poderia ser diferente. Como antes o cansaço se abateu sobre o olhar gentil, corpo e alma entraram em um acordo, e ele por um momento se fechou imaginando ser a última vez que deixava aquilo para trás. Na volta para casa observou inúmeras vidas na falsa percepção de felicidade. Tudo por aqui somente parece até realmente abrir os olhos. Por isso aquele par era gentil com a ilusão, era melhor enquanto durasse. Na casa vazia, no silêncio da mente, o olhar guardou um último esforço, no fundo do espelho enxergou a chama, gravou na memória e descansou. Consigo a certeza de que o sonho poderia acordá-lo novamente.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“A distância deste agora” (17/02/2016)

Há mais tempo do que realmente possa lembrar me perguntaram sobre um depois que ainda me é distante.A imagem que escolhi estava esquecida, não saberia dizer a última vez que pensei nela, mas está intacta. O mesmo sabor, os mesmos tons de felicidade. Quando eu lhe contar vai te parecer uma das coisas mais comuns do mundo. Agora disso eu me lembro bem, foi impossível achar uma foto que representasse este momento. O desejo era mais real do que a verdade.
Quando a vida cansar do tempo e eu aceitar minha passagem por aqui, penso em uma paz soprando contra o rosto em um final de tarde azul cristal. Uma varanda branca de uma casa, uma cadeira de balanço feita com madeira escura e costas vazadas em um desenho igual à do sítio de minha avó. Lá descansarei meus pensamentos, observando o chão costurar o horizonte como as histórias que conhecem seu fim. Com os olhos cheios de lembrança me sobraria no ar uma sensação plena de dever cumprido e a felicidade seria minha redenção.

Não achei imagem.
Não sei cheguei lá.
Mas o que importa?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O bocado de tristeza” (17/02/2016)

Ando às avessas com a vontade. Nada me conquista como o ócio e penso se é tudo que sou. Seria mais fácil aceitar o natural do que imaginar lutar em ser uma esperança ou ideal. Como quero evitar a culpa vou me sentar neste canto, vou suspirar, fazer da melancolia meu encontro já que felicidade não dá para disfarçar. Peço, pois curiosamente o silêncio não nos revela, qualquer coisa que pode ser confundida com algo bom. Eu já estive no melhor de mim, em menos dúvidas, mais coragem, mais fé…..não sei explicar, mas é como eu tivesse mais sentido. Não me leve para sua tristeza, pois não o sou. Estou apenas perdido, talvez a ilusão tenha sido ter direção. Viver é navegar entre estrelas apagadas e bússola quebrada na escuridão. Sem essa bobagem de ir contra a corrente, a gente precisa de vento na vela, vergonha na cara, destino no coração. Na ausência dos três eu espero, quem sabe noutra maré eu me levo, por enquanto serve qualquer lugar. Hoje é tudo que sou. Enganar-se é o primeiro passo para se perder. Sentir tem que ser o tempo todo, até o fim. Chora espelho, desaba corpo, entrega consciente, vocês não precisam mais tentar. Liberdade é não esconder.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Estagnado” (20/01/2016)

O que será que não enxergo agora?
O que devo fazer com todos esses sonhos?
O que me falta adicionar ao espelho?
Eu queria saber mais de tudo isso
Mas sei sobre o que é possível

Nada que acontece é o fim do mundo
Mas onde é o começo?
Qual lugar exatamente eu me encontro?
Será que eu quero mesmo mudar o que sou?
Só se segue em frente caminhando?

Eu esperava limpar as minhas dúvidas
Chorar as alegrias mais escondidas
Meu medo é não ter saída
Não existir nada além do medíocre
Que grandeza é essa que eu tenho sem respostas?

O vazio da alma é algo estranho
É ter um espaço sem ter o que preencher
É olhar o horizonte e seu rosto sem saber o que procurar
É não saber onde apoiar o coração
Não questiono a esperança, mas existe o que acredito?

O mundo gira sem nós
Eu preciso desatar o meu
Por enquanto permaneço cego
Corpo torto sem caminho certo
O amanhã é um pergunta que ainda não me faço.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Corrente de Fé” (11/01/2016)

É difícil não se envolver com a esperança. Tentamos ficar deste lado sóbrios, serenos, justos e lógicos. Só que lá daquele lado é que vive nosso sonho, nossa saída, nossa felicidade, nosso futuro. Por mais que aqui seja um confluente de tudo que já conquistamos, uma seleção do melhor de nós até aqui. O outro lado vai sempre reservar o que ainda podemos e queremos ser, a nova felicidade, diferentes objetivos, voos ainda mais altos. Mudamos e nem sempre o mundo acompanha. Crescemos e nem sempre a cabeça acompanha. Fazemos de nossos esforços uma questão de equilíbrio. É bem verdade que demora e tem muita coisa que se acaba tomando por verdade antes da hora…..as decepções, sem dúvida, são as grandes desvantagens de lá. É preciso muita força de vontade para continuar tentando, é preciso perceber o quanto podemos ser mais felizes para arriscar, é preciso a sinceridade de uma alma nua, que o medo supere a inércia. Devo confessar ainda que a nossa chance é quase um engano. Parece um descuido no universo, um momento que as coisas apontam na sua direção e te abrem o caminho. É tão surreal que muitos de nós deixamos passar pensando ser tudo mentira, mais aterrorizante do que algo que jamais poderá acontecer é o que acontece da maneira que você sempre imaginou. Eis o grande conflito entre o entusiasmo do que está na sua frente e a experiência na pele que te faz sempre ficar com um passo atrás. Mas como, como não mergulhar no rio da esperança e pedir com todas as forças para que finalmente deságue tudo isso que não tem palavra, não tem voz, nem explicação? Como não abraçar e torcer para dar certo? Como depois de conhecer dor, insatisfação, amargura não vamos embarcar nessa correnteza novamente para sermos felizes?
A esperança não pode te dar a certeza de que essa é a saída, mas isso não impede de desejar que seja.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Riscos” (12/11/2015)

Quando a gente é novo o mundo é só descobertas. As curiosidades nos levam a grandes tombos e topadas, mas não importa, a vida é uma aventura. Queremos chegar mais alto, queremos correr mais rápido, queremos ir mais longe. A caixa de papelão f-22 é a mais rápida aeronave de toda história. O cavalo de pau corcel negro é o mais corajoso que já conheci. Meu quintal é testemunha das batalhas mais épicas comigo mesmo. Meus soldados foram para guerra, sem que eu pudesse saber o que era uma guerra. Tinha uma galáxia estelar no box do meu banheiro e nem me deixe começar a falar sobre o teto do quarto. Os corredores eram maiores e o gramado da minha avó o meu Maracanã. Fui de tudo neste enredo, o mundo sempre coube na minha imaginação e foi difícil entender que o contrário não seria mais possível. O adulto é cheio de medos, as paredes são de concreto e tem uma janela onde podemos colocar nossos sonhos longe o bastante. Vejo meu gato pulando dentro de caixas, perseguindo a própria sombra, se divertindo com sacolas plásticas e papel picado. Ao comparar nossos olhos, penso que preciso voltar a ralar os joelhos por aí.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Mancada” (10/11/2015)

Cansei dessa história
Cansei da culpa
Cansei de estar sempre aquém
Cansei de duvidar
Cansei de procurar o erro no meu espelho
Cansei de me diminuir
Cansei de gastar meu tempo
Cansei de usar o meu pensamento
Cansei dessa história só ter um lado

Quero meu orgulho de volta
Quero o meu sorriso
Quero a minha paz
Quero não olhar para trás
Quero te deixar com suas verdades
Quero me livrar do desgosto
Quero teu melhor só que longe de mim
Quero que perceba as tuas falhas
Quero que compartilhe da humilhação
Quero que você perca o sono
Quero que você entenda o peso da responsabilidade
Quero que você entenda que isso significa muito mais para os outros do que para você

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Pródigo” (09/11/2015)

Quem sabe era o filho que precisava se perder
Todo mundo sabe o caminho de casa
A questão é com que cara vamos voltar

Precisamos ir longe demais
Desconhecer o nosso próprio ser
Para entender o que nos faz únicos

Tentarei me encontrar da onde parti
Onde rompeu meu espírito de vontade
A última vez que lembro de ser livre

Rezo com todas as forças por um abraço
Desejo com toda esperança um novo caminho
Espero silenciar a dúvida para nascer outra paz

Só posso lhe dizer, que siga os próprios passos
É raro não precisar buscar longe daqui
É mais fundamental ainda a coragem e sabedoria de voltar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um vazio na imensidão” (08/11/2015)

O papel não cria vontade
A agenda não faz compromisso
Tem algo quebrado no espírito
Ou estou muito longe de casa

Cheguei aqui para viver
Não para me deixar levar
Escondi-me atrás do leme
Perdi a força para remar

A inércia é quase um alívio
Mas no espelho só fica a dor
Um incompleto retrato
De um olhar sem calor

Não me falta vento
Me falta prumo
Não me falta sonho
Me falta fé

A promessa permanece
Uma verdade e pés no chão
O medo é não lembrar o caminho
A chance de ter sido vão

Ass: Danilo Mendonça Martinho