“Cheiro de chuva no asfalto” (27/04/2018)

Eu conheci quem gostava de cheiro de grama cortada, me falaram que o cheiro de natal era igual lustra-móveis. Sempre admirei essas memórias, pois eu mesmo também abro um sorriso bobo nas simplicidades da vida. Só que na minha sina me apaixonei por cheiro de chuva no asfalto, o que, no consenso, não existe. Na terra, na planta, na pele, mas jamais no asfalto. O concreto não se mistura, não é natural, não adquiri odor. Mesmo assim minhas memórias mais antigas, meus sentimentos mais puros chegam nesta garoa fina que cai neste chão impermeável. Algumas vezes no meio, outras com o queixo encostado no parapeito, foi aqui que senti a essência da minha vida. Chegar onde não se chega. Dar sentido ao invisível. Fazer de todo impossível a chance de ser feliz. 


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Queda Livre” (18/01/2018)

No disfarce da chuva
A voz não poupou ninguém
Entregue ao ódio
Mergulhada na inércia
A razão que se perdia
Era a mesma que justificava
A emoção não esconde a alma
A raiva cega aguçava os sentidos
Acabava ali naquele instante
A mente despedaçada em dúvida

A gota que toca a pele
Escorre a lágrima, penetra na alma
A gota que é prisma
Ilumina o caminho, clareia a escolha
A gota no meio da tempestade
Sem tréguas e nada além da verdade
A gota que chega ao chão sabe
Que é a última vez

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Nuvens Escuras” (20/10/2017)

A tempestade é um bom sinal
Dá um novo sentido ao que temos
A nau bem construída
O guarda-chuva na mochila
A imperfeição que admitimos

Agora que o medo levanta ondas
Que as dúvidas inundaram certezas
Temos âncora, temos raiz, temos abraço
Em nós encontramos abrigo
No amor que dá sentido

Assoviarão muitos ventos
Vai balançar até enjoar
O plano pode vir a falhar
Mas terminaremos como cúmplices
Jamais deixaremos de tentar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Poente” (05/01/2016)

Eu sinto falta do entardecer. Suas cores, seus degrades, por vezes o cheiro que antecede a chuva, por vezes a preguiça do calor. Eu perco tanto meu Deus, e não posso nem dizer que é falta de janelas. Vão me escapando aos poucos as sensibilidades da alma presa na rotina, do sorriso preso no sonho, da esperança escondida no silêncio. São dias que me contorno vazio para atravessar.Mas esses prédios de fundo cinza me completam, esses ônibus que se cruzam como formigas no rejunte do azulejo, os raios que em um milésimo unem céu e terra, e essas milhares de janelinhas miúdas, cada qual com uma vida brilhando, como uma caixinha de jóias esquecida na penteadeira do quarto. Eu sinto falta dessa brisa gelada, deste projeto de nada onde o dever foi cumprido e não temos para onde ir. Faz o tempo soar eterno, não é mesmo? Eu tenho é saudade do que era por não saber o que serei. Tudo me perece meio perdido. O Sol que nasce antes, a noite que chega sem chamar e a razão que se vê sempre espremida entre os ponteiros, cansada, sem entender no que vai dar. Eu sinto falta de espaço para esparramar os sentimentos. Enfrentar os medos e as bobagens. Falar sozinho, debruçar no parapeito. Largar-se na sombra da escuridão que ainda não é. Ver tomar a sala, esconder o rosto. Não precisar explicar porque. Desta alegria besta de olhar para vida e esquecer do jantar. Eu sinto falta de um horizonte.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

14/11/2016

“Acordei debaixo de um véu branco
Sobre a proteção da garoa
Ventos de alguma outra direção
Mudo a vela para evitar contradições
Passa pelo horizonte o mesmo filme
Penso no final do que não teve começo
Acredito neste norte, vivo por este destino
Só receio as mortes nas praias
Por isso remo, desistir é a ilusão de tentar…

…O frio é gentil na medida que permite mais abraços
Mas para aqueles que tem de partir é um lembrete
A vida é andar por curvas onde se perde totalmente do sonho
Por isso na minha língua fé se chama passo
Levam tempo, levam força
Tem realidade de sobra
O homem sem camisa pede no farol
Nos falta a mesma gentileza da natureza
Esgotados adiamos mais uma vez
O solidário, a verdade e até mesmo desistir.”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Encharcado” (06/06/2016)

A chuva começa
Vem o medo da poça
Do guarda-chuva virar
Entre quem corre e quem desiste
A natureza não faz distinção
Cai em cima para depois perguntar
Disfarcei-me de árvore
Imóvel e braços abertos
Aproximei dela como se fossemos um só
Mas minha parceira estava anoréxica
“Ainda é outono meu caro poeta
E não tem mais folhas para segurar”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Veranico n°2” (12/04/2016)

Outono!!!
Sai de baixo do Sol e vem almoçar!
Vem logo menino que passou da hora
Vai pegar insolação
Vai me deixar doente de preocupação

Outono, tá quente demais!!
Daqui a pouco vai precisar chover
Vai acabar com toda tua brincadeira
Vai ficar só você na choradeira
Agora me larga do teu irmão

Ouutooonooo, eu não vou repetir
Ai, se você não entrar neste mundo agora
Eu vou dar pro inverno teus brinquedos
Te tiro do próximo bissexto
E você pode esquecer do jantar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Veranico” (08/04/2016)

Mas que calor!
Ah, mas que outoninho vagabundo!
Mas o que fui dizer
Ele veio me cobrar de manhãzinha
Os amores que já vivemos
As verdades que ele me esconde
Perdão pelo impensado
Mas você vem pregando peças
Vem me ofuscando os olhos
Deixou-me com suor e sem lágrimas
Cadê toda tua melancolia?
O Sol sem força e o céu sem graça?
Quero garoa em tarde eterna
Um vento para usar moletom
Um chocolate quente enterrado no sofá
Uma tristeza leve para equilibrar o dia
Tua data já é longa passada
O que irá me inspirar visita tão curta
Logo agora que preciso da palavra
Cresceu em ti a adolescência
Ser veranico para ficar na moda
Ah, seu outoninho sem vergonha
Não se faça de besta
Que te faço poesia!

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Disfarce” (01/10/2015)

Falo chuva
É onde me sinto livre
Se a alma não cabe ao menos dilui
Lamentamos a procura de salvação
Essa consciência transformou tudo em suspiro
Não tenho coragem de assumir minhas insignificâncias
Por isso peço tempestade
Meus erros cresceram em mim
Eu me diminui diante o mundo
Ou não cresci diante a idade
Apelei para promessas
Mas a mudança pode só depender de mim
Tenho medo de pedir respostas
Então pode ser garoa
Sem pressa e sem vontade
A palavra sempre carrega
Quantas viagens para levar isto daqui?

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Edição de outono” (19/03/2015)

Imprimo-me seco
Na maior variedade de marrons que achei
Estalo a cada passo
Ajeitando minhas entranhas com o vento uivoso
Forro meu chão
Papéis picados e esquecidas cartas de amor
Tiro meu véu
E sobra apenas o azul, da esperança ao desespero
Acalmo a vida
Comigo há de não ter pressa o amanhã
No espelho amarelado
Reflito sobre tudo que leva até aqui
Visto outra estação
Para ver se me sirvo e descubro como seguir

Ass: Danilo Mendonça Martinho