"Deserto de Alma" (01/10/2012)

A secura dos dias chega na alma
São os goles de água que não completam a vida
Os corpos que endurecem sem afeto
O coração que arranha forçando desejos

Não há tempo bom em um mundo vazio
Para preencher uma vida é preciso vontade
Sonho se inspira no ar, mas o que fica por dentro?
No que exatamente a gente se transforma?

Que volte por favor o sentimento
Há espaços demais entre as palavras
Construindo abismos entre as pessoas

Basta um dia de esperança
Um olhar levemente atento
E a alma deixará de ser silêncio

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Para as Tardes Vazias” (31/07/2012)

Me faz companhia nas tardes frias, um amanhã. O sol vence o horizonte como que num carinho nos cabelos e levanta os olhos com uma brisa. A estrela solitária que brilha intensamente e sombreia o amor que dorme ao meu lado. A felicidade me preenche como o ar que respiro, mas ao contrário dele, não me deixa. A casa tem tons avermelhados como de uma memória viva. São os tons da alegria. Levanto-me para preparar o café e de longe observo no quarto dos fundos a criança que dormiu mais uma vez com os pés para fora das cobertas. Um filho é completar uma vida. Descer as escadas com estes amores repousando em paz é a certeza de um lar. Compro o pão fresco, enfeito a mesa. Logo os passos correndo da criança vão avançar sobre o corpo da mãe, ambos vão se matar de rir. E eu que por tantas vezes ouvi de longe pessoas se divertindo e me senti mal, distante, à parte; Desta vez vou chorar sem me conter, pelo maior presente que poderia ter nesse mundo. De olhos marejados beijarei minha esposa, abraçarei meu filho e nada me faltará.

Um homem com um sonho, não é um homem só.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Ímpares” (04/07/2012)

Completar-se é apenas uma peça do quebra-cabeças neste mundo. Construímos nosso lar, preenchemos seu vazio. Mas do outro lado da janela do trem, na plataforma dos sentidos opostos seguem os desencontros. Almas que seguram mãos sem saber porque. Rostos que não se tocam, pessoas que se conformam. Não canso de ver desembarcar desilusões, trocando lugar com a solidão. A espera pelo sonho. Constante, cruel, fria, rotineira. Corpos recostados pelo tempo, olhos perdidos no fim do túnel. Há tanto sentimentos aguardando pelo encontro errado. Gostaria de vê-los embarcar sem destino, livres de dúvida. Mas essa liberdade é utopia. Eu parti, mas na procura de me reencontrar. Todos queremos um par.

Em algum nível o mundo sempre permanece aos pedaços.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Modernidades” (27/06/2012)

Atrás da poluição nasce o dia
Árvores secas, pés descalços
As paredes frias do quarto
O mofo no espelho, o rosto conformado
A realidade atrás da porta
Um cumprimento funcional
Laços efêmeros, presença vazia
Todos alheios a própria existência
Ignoráveis verdades, corações fechados
O caminho para casa é longo
Existe distância maior do que do desejo?
Enterrado no sofá, a chuva se dispersa
Aprisionado ao âncora
Lembrança do perigo lá fora
A tranca por dentro, o medo do próximo
O muro de arame farpado
Corpos desesperadamente evacuados
Almas a procura de abrigo
A terra dividida sem espaço
O travesseiro é de pedra
O sonho não é de graça
Se rezam, dispensam palavras
Nem o ar aqui transita
Concreto não respira

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Subterrâneo” (28/05/2012)

Aqui a vida passa
Não carrega nem leva
Passa
Comboios de destino
Sugados de vontade
Ausente no espaço
Presença não é só corpo
Murmúrios de lamentação
Mas nenhuma voz se levanta
Passivos do que os guiam
A luz não ilumina o horizonte
Todos satisfeitos com esse agora
Histórias nos reflexos dos vidros
Namoros de olhos desencontrados
A investigação sobre o outro
A surpresa de ser, também, observado
Cabeças a meia altura
Fogem do resto como de si
Ombros arqueados pelo tempo
O verdadeiro cansaço te acorda
Venceu teus sonhos
Como é difícil nascer nesse concreto
Mas se não há alma que tente
A vida passa sem desembarcar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Leito” (16/03/2012)

Fecha os olhos e a janela
Vem ver o Sol nascer
A meia luz de um coração
Que espera por você
Não corre não
Amor não precisa de hora
Apenas um abraço e uma canção
Façamos de cada aurora
Um novo alvorecer
Se ponha nas minhas costas
Madrugue nos meus lábios
Dance seu corpo nas notas
Que derrubam teu silêncio casto
Deflagre o interior do sonho
E lembre que no caminho da realidade
Vais me encontrar risonho
Na alvorada dos teus olhos

Hoje dorme tranquila a felicidade
Sob uma garoa de outono

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Solidão Pública” (01/02/2012)

As portas ainda fecham
Penso no que ainda é segredo
As fronteiras são pros outros?
Nos muros somos paradoxos
Seguros de tudo que não nos toca
Incertos de tudo que se poderia sentir

Essas trancas sem chave
Castidades aos corações
Nosso pedaço ainda livre
Que palavras só vivem em diários?
Quais cartas não podem ter destino?
Que almas deixam de respirar?

Arrombei todas as fechaduras
Nem o vento me agrediu
Como se o mundo tivesse espaço
Descobri que a multidão é outro esconderijo
Despi-me das dores e cicatrizes
Entendi que por aqui, a vida só passa

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Rotina” (31/01/2012)

Pensei acordar sob os mesmos céus ao enquadrar todas as manhãs o horizonte da minha janela. Olhei nuvens, tons de azul e pingos de chuva. Do outro lado tudo me pareceu estático, prédios, árvores, pessoas…principalmente pessoas. Assim desenhava meus dias, nos moldes ultrapassados do ontem, de cores cada vez mais desbotadas. Não há nostalgia que aguente. Não há espelho que não mofe encarando o mesmo rosto perdido, de olhos fundos sem quereres. Uma vida de paisagem para um corpo figurativo. Sem cena, sem ato, sem mão que se estenda. As portas já não se fechavam, não tinham o que deixar para trás, não havia surpresa, nem alguém para chegar. Pelas ruas vacantes, vagava, nesta aliteração que tenho certeza que também repito, e se nem o verso é livre como poderá ser o amanhã? Todo mundo quer este agora, vive-lo plenamente mesmo sem os controles dos segundos. Pois o que fazem os que querem tudo que está além do aqui? Beirando o desejo não há glória, bonitos são apenas os sacrifícios. Eu, crente da rotina, não pude pular, ao imaginar que minha escolha já estava marcada em algum passo de um tempo remoto. Ao verificar as marcas percebi que nenhuma era igual a outra, e que esta prisão do tempo, era minha ilusão.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

Post Especial #1

O poema a seguir está no livro “Poeta da Colina – Um Romântico no Século XXI” e será recitado na Noite de Autógrafos do próximo dia 22 de Setembro. O evento terá cobertura de foto e vídeo da produtora Tripé De Ideias.

(OBS:O livro só está a venda pela internet. O tempo média de chegada do livro depois de pedir são 3 dias úteis.)

“Só de Passagem” (20/04/2006)

A vida se isolou hoje
Nos carros engarrafados
Salas vazias, casas abandonadas
As pessoas fogem de si próprias
Todos para os mesmos lugares
Tentando algum dia escapar
Onde é longe demais?

A vida se esvaziou
Foi deixada para trás
Saturada, insana, sufocante,
Hoje descansa dos indivíduos
Espera pacientemente a volta
Daqueles que procuram sem achar
Mas por enquanto só esqueça
O mundo não é o mesmo
Habitado apenas por animais

A inércia tomou conta
Aceitei sem lutar
Talvez esteja fraco
Corações partidos
Cicatrizes diárias
Talvez seja consciente
Fechei meus olhos
Soltei sua mão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Amores de metrô” (05/07/2011)

Procuro pelo teu reflexo
Um jogo de sinais
Não posso te entregar o olhar
Aprecio teus trejeitos
Verifico de canto teu rosto
Disfarço buscando o horizonte
Ao retratar teu corpo
Já sei que me repara
Não nego, te admiro
Mas nada além disso
Seriam levianas as palavras
Ousados demais os gestos
Somos então hipótese
Nossa intenção é um talvez
Tento parecer indiferente
Mas o sorriso me desfaz
Observo tua imagem na janela
Reparo seus anelares
Analiso minúcias de teu rosto
Hoje não tenho desculpas
Diluo a presença num sonho
As portas abrem na expectativa
E sempre desce antes de mim
Resta saber:
Será que ela é de olhar para trás.

Ass: Danilo Mendonça Martinho