“A idade” (10/07/2014)

Ônibus sobe a Lins
Nenhum ônibus sobe mais a Lins
Assim se fecharam as portas do passado
A senhora permaneceria na espera
Pelo ônibus que não viria

Subimos a Lacerda, não serve, vou embora
Decidiu o motorista sem explicar
Mas também não entende a senhora
Ele não sabe como o tempo passa diferente
Como é difícil mudar quando se foi a vida toda

Faz tempo que mudou
Impossível ela não saber
Indagações e comentários tardios
Tínhamos partido sem dar chances
Nenhum tempo faz mais do que ela
É um desrespeito que passe sem lhe dar atenção
É insano a pressa que deixamos tudo para trás

Tenho pouco tempo aqui
Penso que também não sabia
Envelhecer não são as nossas mudanças
São as mudanças que desconhecemos
Tudo que nos deixa parados no ponto

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“De um dia pro outro” (24/06/2014)

Meu rosto vai desaparecer
Eu mesmo vou esquecer
As companhias silenciosas
Que hoje me despeço
Só eu sei que vou partir
Reparo em todos os detalhes
Quando uma rotina muda
É provável que não vamos mais voltar

Então caminho sem pressa
Não evito mais olhares
O mais gentil que posso, sorrio
Quantas palavras nasceram aqui
Quantas vidas cruzei sem tocar
Observei mundos distantes
Que sentaram-se ao meu lado

Há uma nostalgia do presente
Tudo isso já é passado
Amanhã tudo se perderá
Já foram muitos caminhos
Distâncias se constroem rapidamente
Como se uma rotação da terra
Deixasse tudo do outro lado do mundo
O tempo é muito frágil

Nesta efemeridade dos dias
Digo adeus ao que não dura
As faces que não marcaram a minha
Ao caminho que permanecerá
Mas onde serei desconhecido
Basta dormir e a rotina será outra
Como se sempre tivesse sido assim

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Desconcerto Cordial” (22/04/2014)

Desculpe meu amigo
Você não merecia
Não essa palavra menor
Mesmo que com razão
Podia ter evitado
Logo você que sabe
O que é construir um lar
Teu canto é aconchego
É você de todo coração
É que o nosso, é outro
Tem um espaço de pra sempre
Uma vista de se acostumar
Um como para futuro um canto de seriedade
E outro para esquecer-se
Mas acima de tudo
Encontramos sem esperar
Nossa felicidade
Mesmo assim desculpe-me
Nada é motivo de destrato
Todo mundo se incomoda
O amigo é o que não deixa passar
Por isso, desculpas

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Olho de Vidro” (13/11/2013)

O vidro rachado range
Remendos não alteram sua natureza
A cada estalo um grito de liberdade
Foi-lhe negado o fim

Ele esta exposto ao tempo
Em uma fileira que parece infinita
Se repetem as marcas da chuva
Impregna os sabores das cinzas

O sol não é o mesmo deste lado
O mundo quase não gira
Um tom envelhecido e cansado
Os pesos de uma eternidade

Tudo que assustava lá fora
Hoje vive nas fissuras
Um dia não vai mais aguentar
Esperança também quebra

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“O dilema de um bom dia”

A senhora que me disse bom dia o fez por costume, por educação, simpatia, tradição. Mas creio que na verdade o fez por ser natural, por acreditar ser a maneira correta de agir. O dia ainda era penumbra e chovia, ela estava acompanhada de uma ajudante e uma bengala, certamente gostaria de dispensar uma das duas, e disse bom dia a dois jovens desconhecidos que aguardavam algo no caminho, que tenho a impressão que refizera mais vezes que eu. Acenou e sorriu àqueles que frequentavam sua vila que hoje só é assim no nome, tudo é cidade concreta e são muitos os desconhecidos para que um bom dia seja distribuído sem critério. Mas à ela valia. O mundo podia tomar o rumo que fosse, era seu lar, seu caminho. Não desviou-se, não hesitou, não parou para admirar. A senhora era lúcida de seu destino e pura em suas intenções de desejar um belo dia aos outros. Ela não queria meu nome, nem atenção, talvez nem mesmo minha resposta. Admirei sua atitude e claro que pairou sobre minha cabeça a dúvida: Será que ela está certa nessa sociedade contemporânea? Será que a modernidade na verdade nos atrasou? Deu-me vontade de ter liberdade para um bom dia sem obrigação. Pareceu-me mais saudável o jeito daquela senhora sorridente para o mundo, e ele para ela. Receptiva ao perceber os que a rodeiam não como amigos, nem mesmo conhecidos, mas semelhantes. Somos, não é mesmo? Fiquei feliz com aquela perspectiva, aquela lembrança e não precisarei de armas, nem pedras, nem discursos, nem política. Minha revolução será um bom dia até que todos percebam que somos um só.
À senhora que me disse bom dia….disse bom dia, sem alterar minha espera, virar meu rosto, ou repelir sua presença. O fiz naturalmente, reconhecendo-nos como parte do todo.
 
Ass: Danilo Mendonça Martinho

 

“Marasmo”

Lua encheu-se e se apagou
Não mais levantou as marés
Nem sobrepôs a luz da rua
As estrelas órfãs despencavam
Nenhum desejo seria suficiente

O sol não sabia quando se por
Navegar já não era preciso
O romance perdido no breu
A dama partiu sem companhia
Fechou os olhos para nossa vida

A cada sete dias ela chora
A cada sete dias ela cresce
A cada sete dias ela brilha
A cada sete dias ela desaparece
Tudo por aqui permanece

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Avós” (22/01/2013)

Não é que a vida deixe de se criar
Ou que nós abandonamos nossos passos
Mas um dia a lembrança simplesmente invade
E todo agora se completa com uma história

Aquela estrada que ainda não existia
A noite mais fria da vida
Diversão tinha outras cores
Que os jovens de hoje não enxergam

Não há lugar que o passado não entre
A nostalgia vira companhia da rotina
Não sei se para suportar a realidade
Ou para adornar os dias

Perdido nas palavras eu sorrio
Há uma alma cheia de lugares na minha frente
A esperança de preencher a minha
Que amanhã eu tenha o que contar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Descanso” (16/01/2013)

O sol sempre nasce
A natureza sempre respira
Mas nosso olhar divaga
Se perde na distração da rotina
O tempo nos pede outras coisas
Contemplar a vida permanece na lista
Mais esquecido do que lembrado

Tem uma cadeira vazia na beira da praia
Tem um banco esperando na varanda
Tem uma rede balançando em ócio
Há tanta paz nas frestas do mundo
Nós aqui sem ao menos desviar o caminho
Ninguém precisa de permissão para parar
Faça sempre que precisar
É a alma que sustenta o corpo
É a imensidão da vida que alimenta a alma

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Fada” (04/10/2012)

Os dentes que deixei debaixo do travesseiro deram lugar para um sorriso. Não há uma vez que o degradê do horizonte não me deslumbre. O cheiro da chuva preenche minha alma. O vento que bate suspira esperança. Os olhos que não desviam me dão alegria. Os abraços que me envolvem constroem um lar. A tristeza nas calçadas me revoltam. A negligência no poder me amargura. O sonho ainda me dá forças e a verdade proteção. O conformismo me deixa inquieto e a divergência me cria opinião. O outro pode ser companhia eterna. Ninguém precisa significar exclusão. O laço que une uma sociedade é compaixão. Respirar nos dá uma chance. O mundo nos dá uma escolha. A vida pode ser mágica.

Ass: Danilo Mendonça Martinho