Ass: Danilo Mendonça Martinho
Categoria: Cotidiano
“Um verso de esquina” (04/06/2015)
O mundo é feito de esquinas
Não é mesmo Aldo Quiroga
Pois entre tantos contornos
Foi nascer aqui do lado
A poesia, sim ela mesma
Com nome e endereço
E até atividade comercial
Alimentando almas e corpos
Com palavras e pães
Sei que de pronto não leva a sério
Mas segue foto em anexo
Pois notícias perderam a fé
Eu mesmo confesso, duvidei
Na noite me pareceu miragem
Fadiga dos olhos sem pedras
O letreiro permaneceu além dos sonhos
A poesia estava instalada
Com data de inauguração
Toda vila carece de um poeta
Qualquer dúvida sobre meu lugar
Desapareceu por aquela porta
Sou neste aqui
Sou neste agora
Dobro a esquina pro resto da minha vida
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Agenda” (28/02/2015)
Não consigo evitar de ver a chuva caindo lá fora
A cada lembrança do que preciso um raio me ataca
E permaneço inerte tentando achar o que mudou
Quando toda essa alma virou um fardo
Minha razão grita por uma liberdade que desconhece
O vento que passa é o vento que sopra…..sem resposta
Sinto que quero negligenciar minha vida por completo
Deixar de ser tantos para ser nenhum
O ônibus que passa e volta…..e se deixa levar
Querer me impõe escolhas que não me cabem
Sou insuficiente de vontade para ser o tempo todo
A decepção cotidiana do espelho me destrói
Não há um passo nessa vida que eu posso planejar
É necessário ignorar o que preciso para me distrair
Ou ignorar o que eu quero pelo que preciso
Abandonar minha liberdade para controlar o que faço
Chuva, quem te manda cair?
Vai acabar o dia e deixarei alguma parte de mim de lado
Quero seguir naturalmente como suas águas
Aceitar a cada segundo sem saber do próximo
Um querer sem planos, um relógio sem pressa
Para que nenhum final de dia eventualmente me mate
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Uma árvore a favor do vento” (19/02/2015)
Mais um Sol que nasce
Qual a certeza de que não somos os mesmos?
A distância até o horizonte é ilusão de ótica
Nossa percepção constrói diversas verdades
Nós só tentamos acertar para onde
Nascem ainda mais dúvidas
Protegemos a esperança de um dia melhor
As certezas se extinguem nos segundos
Já é difícil saber o que se quer
O que dirá prever o que será do entardecer
No fim, vontades, são apenas vontades
Acordo na espera de um sinal
Para poder me agarrar em algum sonho
A realidade nem sempre acompanha alma
A vida precisa de um tempo
Até que o vento mude de direção
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Em frente” (22/01/2015)
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Acomodação de Alma” (21/10/2014)
Recosto minha cabeça na parede enquanto espero
Perco meu olhar de tudo que acontece em minha volta
Deixo escapar sem remorso os minutos que faltam no dia
Lá se vai mais um passageiro que quase não se conta
Há uma impressão de estagnação neste agora
Talvez seja a falta dentro de si de um sonho concreto
Só que é normal passar por lugares não familiares
Locais onde aprendemos, mas jamais ficamos
O corpo tem sentimento, e sentimento tem lar
Todos nós sabemos quando estamos em casa
Tudo para mim neste momento é extremamente normal
O suspiro que alivia a insatisfação que faz parte
A esperança de que a mudança esteja sempre na próxima esquina
A compreensão que a vida tem um tempo, geralmente, bem certo
Por um milésimo de segundo o metrô cruza a ponte
O olhar desconexo cabisbaixo vê a chuva refletida no asfalto
O coração voluntário reage e me escapa um sorriso
Uma certeza sem razão que tudo vai ficar bem
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Antigas ilusões” (17/10/2014)
Já não me importa o sentido que vai seguir o trem
Teu rosto recostado contra o vidro será desconhecido
Meu destino tem outros caminhos agora
Onde a descoberta já não está do lado de fora
Belezas me passarão os olhos como paisagem
Abraços e beijos me são apenas lembranças
Meu coração sabe, pela primeira vez, para onde voltar
A felicidade só precisa de uma vez
Será por dentro de nossas almas que construiremos
Nossos olhos, corpos e gestos fizeram sua parte
Seremos agora um para o outro
Há tanto espaço quando se juntam vidas
Setenta e dois metros quadrados de sonhos
E cinco janelas para o horizonte
Pelo menos aqui não preciso de mais nada
Quem diria que quando pegava outro vagão
Diferente das mulheres que me chamavam atenção
Sempre estava no lugar certo
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Desabafo Tardio” (29/08/2014)
Será que seríamos felizes se fôssemos mais simples
Sem a consciência de tudo que podemos
Sem a consciência de nossa liberdade
Sem consciência do nosso fadado fim
Será que seríamos mais livres
Se saíssemos sem ambição
Todo dia até o mesmo trabalho burocrático
Que sustentasse nossa vida fora dele
Nosso marasmo em frente a televisão
Nossos suspiros levados pela correnteza
Nossa casa sem saídas
Por que essa ideia de grandiosidade?
Por que não podemos deixar os dias passarem naturalmente?
Deixar a vida a cada noite apaziguar um pouco mais nossa alma
Deixar o tempo ser mestre do destino
Ir e vir nesse mundo sem escalas e sem sinais
Operário da humanidade, uma estagnação da evolução
Poder sentar a mesa e sentir-se inteiro sem nada que lhe falte
Sem nada lá fora que precise para se sentir bem
Uma vida humilde sem muitas regalias
Com um canto para dormir e outro para rezar
Com um dia para sair e muitos para ficar
Que possa respirar sem culpa de algo que esqueci
Uma vida não para marcar, apenas para viver
Divido-me entre a dádiva e o cansaço que a palavra me traz
Toda essa percepção sensível do mundo
Toda essa percepção do que sou e não gosto
Todos os sonhos que construo e não vivo
Todas ideias que não tenho coragem de ir atras
Todo potencial mal aproveitado
Essa vontade de se perder no supérfluo, no cotidiano, no banal
Vejo tanta felicidade em meus desejos
Mas em algumas madrugadas me pergunto
Será que seria mais feliz se desistisse
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Indiferença Urbana” (12/08/2014)
Garoinha fina que não enche represa
Prédios acinzentados que tem coração
Cidade da multidão vazia
Sinto que chora sem colo que te acolha
É mais frio dentro do que fora
O asfalto cobre mas não esquenta
A cortina branca abre e o Sol é fraco
As pessoas te ignoram
Você vela solitária tuas tragédias
A natureza entende o que o humano falha
E no fundo da madrugada gelada
O corpo tem uma ideia, mas não a alma
Se desfazerá em migalhas de concreto
Enxurradas espalharão os seus lixos
Fumaça entupirá suas veias
Enfartaremos em algum horário de pico
Ass: Danilo Mendonça Martinho
“Trabalho” (06/08/2014)
Como é difícil não reconhecer um rosto
Nem estou falando de um amigo
Alguém que não te olhe torto
Alguém que tenha um sorriso sincero
Um porto onde exista algum espaço para ser livre
Um olhar que não saiba seu sobrenome,
Mas esteja disposto a escutar
A obrigação, o desafio, o crescimento,
Não surtem efeito diante o mal estar da alma
Eles resistem por um bem que desconhecem
O que fazer quando só sobra espaço para sobreviver?
Não quero mais favores
Chega de estar nos comentários alheios
Ser peso, ser pedaço, ser carregado
Prefiro ser apenas só
O olhar sem confiança
A companhia sem laços
O fim do dia que tudo leva,
Sem nada para esperar do amanhã
É um deserto de sentimentos
Onde qualquer verdade revelada já gera arrependimento
Andar eternamente no limite entre ser e parecer
Talvez a falha seja minha,
Não saber viver só o burocrático
O profissional sem o humano
Queria contar qualquer bobagem
Queria contar que não estou conseguindo ser completo aqui
Me desculpar por ser ingrato diante a chance
Mas também poder ser livre de sentir
Encontrar um jeito de respirar que não seja pela palavra
Encontrar vida mesmo que não seja no outro.
Ass: Danilo Mendonça Martinho