“Terciário” (10/12/2012)

O mundo há de ter outro dono
Um que não nos assemelhe
Este lugar não tem nada de nosso
O poder é invenção humana
Para generalizar verdades particulares

A ideia é esvaziar o indivíduo
Fazer da vida descartável
Assim a consciência não cobra
Os olhos preferem não ver
O que o coração sente

Entristece as inúmeras faces da miséria
Mas o que mata não é a mão que estende
É o corpo desprovido de escrúpulos
Aqueles de posse da fábula do poder
Escolhem deixar o povo na sua escuridão

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não se deixe” (08/10/2012)

Que vida é essa
Ocupada pelo nada
A negligência ao desejo
Tudo permanece incompleto
Mas o sonho precisa acordar
O amanhã tem que nascer
Deixar-se para trás
É acreditar que existe limite
Nunca vi alma grande demais
A fuga não deve ser regra
Deixar de desenhar expectativas
Não evitará decepcionar-se
Não confunda calma com esquivo
Permita-se cada dia
Permita-se cada amanhã
Crescer é questão de altura
Amadurecer é questão de grandeza

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Tangência” (16/07/2012)

No final do que é lúcido
Reside uma verdade
Calada pela razão
Quando se represa sentimentos
Não se rompe fronteiras

Na beira somos o real
O risco incalculável
Um pulso de um coração
Precipício abaixo não há escolhas
Seremos apenas emoção

No limite de nós
Só existe incerteza
O sonho que não chega
O amor que não se deita
A chance do mundo passar
Sem ao menos te tocar


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Modernidades” (27/06/2012)

Atrás da poluição nasce o dia
Árvores secas, pés descalços
As paredes frias do quarto
O mofo no espelho, o rosto conformado
A realidade atrás da porta
Um cumprimento funcional
Laços efêmeros, presença vazia
Todos alheios a própria existência
Ignoráveis verdades, corações fechados
O caminho para casa é longo
Existe distância maior do que do desejo?
Enterrado no sofá, a chuva se dispersa
Aprisionado ao âncora
Lembrança do perigo lá fora
A tranca por dentro, o medo do próximo
O muro de arame farpado
Corpos desesperadamente evacuados
Almas a procura de abrigo
A terra dividida sem espaço
O travesseiro é de pedra
O sonho não é de graça
Se rezam, dispensam palavras
Nem o ar aqui transita
Concreto não respira

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Aqui” (02/06/2012)

O aqui é este lugar na beira da madrugada onde o sono não me importa. Quando imaginaria deixar o sonho em segundo plano? Já chorei nesse travesseiro, passei uma tarde muda ao pé da cama. Dormi em desespero por uma resposta, lamentei a distância, acordei vestindo o inimigo. Mais ninguém entrou neste quarto, só essências e contornos das vozes e corpos que impregnaram na alma os cheiros apenas para depois evaporar. Não houve poema, nem lembrança que se agarrasse as paredes. A realidade cansou de substituir a imaginação sem êxito. Flores murcharam e palavras envelheceram. Não posso negar a esses cantos que cheguei sim a desistir. Agarrado as grades da janela profanei. Silenciei todos meus pedidos. Dentro de mim moram cicatrizes e as mais puras verdades. O cru e nu. A face sem intérprete e o sentimento sem voz. Tudo nesse lugar já sorriu, tudo nesse lugar já sofreu, sem que ninguém jamais soubesse. Onde a vida mora, quase ninguém visita. Quantas vezes acabei só…

É por causa deste aqui que valorizo o corpo que por hora dorme ao meu lado. Mudaste meu reflexo no espelho, levaste as dores das paredes. Entrou sem invadir, abraçou sem ameaçar, amaste em reciprocidade…decidiste ficar. Agradeço a cada canto deste quarto, sorrio a cada novo momento marcado. Nem sabes com tudo que convives, mas você destoa e dá novas cores a todo resto. O passado sustenta nossa verdade. A realidade fortalece o nosso amor. Onde a minha vida mora, você também vive.


Ass: Danilo Mendonça Martinho

“No limite da mágoa” (17/05/2012)

Pereceu hoje pela manhã a última gota de lágrima. Seca contra o vidro. Sua marca virá a esmaecer em tons de bege ao lado de outras memórias. Sujeiras que se limpam como o canto de um olho. O corpo que foi levado na maré da tristeza repousa sobre a areia, devolvido a mercê dos próprios passos. O sol não o acorda, o vento não o incomoda, a chuva lhe é indiferente. O sentimento perdido aleijou-lhe de vontade. Assim diariamente nega o horizonte que nasce. Ninguém é cego de paixão, apenas depois dela. Pela janela passaram prazeres, atrás da porta do quarto ficaram os desejos e a casa permaneceu fechada. Guardado no fundo da cama o humano por trás da vida.

Tudo que se sente está do outro lado. Fechando os olhos para o mundo, passam também as alegrias.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Expirando-se” (14/05/2012)

A carapuça serviu
Como máscara de baile
Acostumou-se com a fantasia
As paixões que ardem
Os contos que acordam
Veste-se esse sorriso barato
Despe da realidade vigente
As verdades e a razão
O lógico e o possível
O só se tornou todo
Como se não pudesse ser mais nada
Abandonou a si no espelho
Saia com a roupa de outro
Abria jornais os quais não lia
Dormia sobre sonhos desconhecidos
Passos sem caminho
Mandava cartas para si
Nunca chegaram
Mudou-se de alma
A existência lhe ficou vacante
A insensatez é humana
Que ao sentir abdica do “eu”
Mesmo fazendo parte do “nós”

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“As Marcas” (19/04/2012)

Quando só sobrarem meus pés para partir
Terei aberto mão de todo sonho
Deixarei para trás partes que não descobri
Não terei guardado um desejo para depois
Direi que esgotou-se o sentimento
Mas sem motivos do que me tomou partido
A felicidade sempre conta com o amanhã
Terei abandonado a ela também
Serei apenas eu descalço contra as pedras da estrada
O resto de mim estará em outrem
Corpos que abrigaram abraços
No fundo de almas, totalmente perdido
Inexistente da realidade que me cerca
Caminharei demais até outro que me faça vivo
Nada é longe quando desfeito de destino
Reconstruirei a ideia de mim
Aos moldes de algum paradoxo
Desaparecerei, irreconhecível aos pares
Forjarei o fim de tudo
Depois de se sentir pleno
É a única forma de se sentir livre novamente
Eu prometo jamais olhar para trás
Não serei leviano de deixar esperanças
Agora, tudo que amei, jamais irá partir

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Filtro” (26/02/2012)

Respiro
Insistência poética
Acreditamos na inspiração
Que o ar condensa sentimentos
Que a vida pode escapar em um suspiro

Inspiro
Na busca do não dito
A palavra que veste silêncio
Um amor nas penumbras dos olhos
Um querer nos contornos dos sorrisos

Expiro
Abro mão
O real se completa na liberdade
A posse não cabe no abraço
O dever seca os lábios dos beijos

Ass: Danilo Mendonça Martinho