“Um abraço” (19/11/2014)

Honestamente não sei como quebrar o silêncio, e dizem que sou bom com as palavras, mas nunca com você. Não sei como vai me receber naquele dia, há muito na sua cabeça e independente do seu humor sei o que guarda por dentro e isso é o que sempre admirei. Então mesmo de lado, de canto, vamos nos entendendo aos poucos, com fala baixa e rara, sobre assuntos banais e outros nem tanto. Muitas vezes pessoas viram como você exterioriza toda sua raiva, sua inconformação, e só quem convive mesmo sabe que guarda para si toda bondade, tudo que sempre te faz tomar atitudes de cuidado, de carinho. Talvez o que mostramos para o mundo nos deixa mal falados, ou incompreendidos. Talvez não seja preciso palavra alguma, apenas um olhar que enxergue e que principalmente saiba. Por você a vida seria só sacrifício por aqueles que ama. Por mais que certas coisas fujam da sua compreensão, ainda assim aceita e faz o melhor pelo outro. A vida já te deu muito revés, mas não te tirou esse gesto, não apagou essa alma, não te tirou do rumo, apenas algumas vezes do sério. Eu sei e acredito que você sabe que este silêncio entre nós é amor. O que tem me incomodado é outra coisa. Queria chegar perto de ti e te abraçar, para que você soubesse que sou grato. Nosso amor é incondicional, eu quero dizer outra coisa que não está na palavra, nem na falta dela, nem neste nosso acordo velado. Quando nós crescemos percebemos o quanto certas pessoas a nossa volta dedicaram partes inteiras de suas vidas para que nós pudéssemos viver as nossas. Penso que talvez isso nem caiba em um único abraço, mas você merece essa gratidão expressa da melhor forma que posso. Ainda saberei melhor o que te dizer, serei melhor em encurtar nossas distâncias, por enquanto darei um jeito de te encontrar neste abraço que não é por agora, mas pelo que sempre foi para mim. Teu coração é meu exemplo e espero que o meu também tenha força de alcançar tantas pessoas. Obrigado por doar esta parte de sua vida, farei algo lindo disso tudo. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Livre arbítrio” (12/11/2014)

Viver definitivamente é uma possibilidade
Respirar é um ato tão involuntário que não se sente
Caminhar pode ser apenas uma questão de inércia
Falar é algo que se aprende imitando o outro
Nossa existência segue o que lhe é natural

Viver é artificial
É uma criação puramente sua
Não existe sem vontade
Não se completa sem ação
E mesmo com esta consciência, não é uma certeza

Viver é incômodo
É preciso todos os dias seguir pelo desconhecido
Ser nômade de corpo e alma
Entender que não há lugar a salvo
E eventualmente abandonar o que já construiu

Viver é paradoxal
Continuar quando todos dizem que não
Querer com todas as forças o impossível
Acordar mesmo sabendo que nada mudou
Ter esperanças de encontrar o que ninguém prometeu

Viver é quase que improvável
A verdade é que é uma pulga atrás da orelha
A curiosidade que nos convence para mais um dia
Há muito neste mundo que é líquido e certo
Mas e se resolvermos viver…

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Não sejamos os mesmos” (04/11/2014)

A vida tem lugares extremamente confortáveis. Onde as coisas parecem ter encontrado seu espaço e só precisamos seguir. Só que há um velado problema em deixar a maré levar, ela acaba dando voltas para o mesmo lugar. É preciso remar, por mais impreciso que seja o nosso norte. Minha grande ilusão é a crença neste local que sentirei ser meu a vida toda. Estamos sempre em movimento e eventualmente, por mais que algo nos defina, por mais que tenha se acostumado em ser ali, e ainda que aquele lugar seja o que te criou, a gratidão não pode virar uma prisão, temos que seguir. O caminho é invariavelmente para frente. Já me perdi nos meandros da conformação, mas o peito é mais forte, incomoda, pesa, grita até que a gente se mova. O confortável um dia vira frustração. Um pedaço da felicidade é nômade e precisamos dele para sermos completos. Quando sabemos e reconhecemos cada detalhe do nosso redor é hora de abrir uma fresta e partir. Quando se muda percebemos tudo que é supérfluo e levamos apenas o necessário, mudando lembramos o quanto ainda somos livres. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Crescer” (29/10/2014)

Sempre queremos mais
Numa busca sem limites pelo melhor de nós
Uma pressão diária e sufocante
Até que um dia nos vemos no deserto
Sem saber exatamente o que já somos
Longe de tudo que sonhamos ser
Sem uma real perspectiva de propósito
O constante sentimento de se sentir insuficiente

Nossos próprios sonhos podem nos diminuir
Fazer com que deixemos de nos reconhecer
Cada erro parece um desvio sem volta
Todo dia, sem saber exatamente o quê, algo nos vence
E nem mesmo o papel de vítima nos serve
Um desgosto por se ver fraco
Incapaz de lutar contra a própria inércia
O mundo pode ser devastador
Mas a falta da força de vontade mata

É preciso parar diante o espelho por dias
Separar o que é, de tudo que pretende ser
Reencontrar dentro de si o caminho e não a fuga
Algo que nos recorde o quanto já somos felizes
Entender que certas coisas apenas nos rodeiam
E que tantas outras são as que nos tornam completo
Querer mais não significa que já não temos tudo que precisamos
Somos do tamanho da vida

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Acomodação de Alma” (21/10/2014)

Recosto minha cabeça na parede enquanto espero
Perco meu olhar de tudo que acontece em minha volta
Deixo escapar sem remorso os minutos que faltam no dia
Lá se vai mais um passageiro que quase não se conta
Há uma impressão de estagnação neste agora
Talvez seja a falta dentro de si de um sonho concreto
Só que é normal passar por lugares não familiares
Locais onde aprendemos, mas jamais ficamos
O corpo tem sentimento, e sentimento tem lar
Todos nós sabemos quando estamos em casa
Tudo para mim neste momento é extremamente normal
O suspiro que alivia a insatisfação que faz parte
A esperança de que a mudança esteja sempre na próxima esquina
A compreensão que a vida tem um tempo, geralmente, bem certo
Por um milésimo de segundo o metrô cruza a ponte
O olhar desconexo cabisbaixo vê a chuva refletida no asfalto
O coração voluntário reage e me escapa um sorriso
Uma certeza sem razão que tudo vai ficar bem

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Porto” (20/10/2014)

Foi como chegar de uma viagem sem precisar partir. Descarregar nossas roupas, nossas coisas e nossa vida. Tons de felicidade que não conhecia. Não era simplesmente o sorriso, nem era o abraço, era algo mais interno, completo e pleno, um encontro com o futuro, a sensação de viver um sonho, de ser feliz sem nenhum esforço. Estávamos em casa, pela primeira vez. A noite não era a mesma, as luzes ligadas davam um tom de permanência e ouvia o chuveiro ligado do sofá, via a cidade no horizonte e ajeitava nossos pertences, arrumamos a cama e na penumbra da sala olhava pela janela todos meus próximos dias. Faz alguns dias que não me sinto bem, que desenvolvo um pouco de frustração e melancolia, que a realidade me fatiga e me arrasto, o alívio me era raro. Mas quando chegamos meu coração se encheu de esperança, viu todos motivos para seguir. Guardei na minha alma o lugar que poderei fechar os olhos e lembrar toda vez que precisar fugir. Amor, somos um lar.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Notícias de um passado” (17/10/2014)

Foi em uma viagem sem propósitos e com uma noite mal dormida que se encontrou preso no banheiro. Do lado de fora sabia que já se resguardava acordada a mulher de qual a razão queria distância, mas que o corpo e suas necessidades afloradas pela manhã lhe atacariam sem forças para evitar. Por um mero instante esperou e conscientemente deu descarga nos seus pudores e teve primeiro a certeza de ter chamado atenção, para depois sair cheio de libido e encarnar os sonhos que nem eram seus. Seria uma escolha de um caso de uma noite que provavelmente não afetaria em nada teu agora, mas foi evidenciado claramente a marca de uma vida naqueles lençóis, uma dobra, uma fenda, uma decisão profunda, uma construção de caráter, um tornar-se, uma mudança. 
Nesse mesmo lugar, tempos depois, alguém vulnerável, disposta a deixar, por um instante, seus princípios, gostos e vontades. Pronta para ser sugestionada a aceitar a ideia de que o diferente era a saída para seus pensamentos ligados a quem não estava ao seu lado. A proposta de experimentar uma alternativa para ser feliz. Deixar tomar seu corpo meio apagado pela tristeza e quem sabe poder se esquecer enquanto o outro pudesse se enganar. Num acordo velado de almas que precisam, e até uma mentira serve para sobreviver. Um dia a verdade estaria ali como a única coisa que sobraria, uma dor que talvez até não fosse tão grande já que não houve entrega, mas, ainda assim, uma dor suficiente de envergonhar olhar na cara. Aqui não saberia dizer o tempo que isso duraria, mentiras tendem a ser altamente autossuficientes, encontrando palavras e meios de seguir de uma forma cômoda e imperceptível. Essa lembrança tem contornos mais fortes de mudança, e talvez uma que te levasse para sempre longe desta agora tão mais real, tão mais verdadeiro, tão mais completo. A verdade é que mesmo com todo este potencial, aquilo jamais pareceu uma opção. 
Há muitos outros momentos por aqui. A garota que comentava com amiga, e nunca teve a coragem de perguntar o que era. Aquela pergunta inconveniente no ônibus vazio. As pessoas que te acuaram e as quais você nunca prestou atenção. No fim deste tempo sempre beira uma única coisa, consciente ou não, emoção ou razão, tudo foi sempre uma escolha, e escolhas são o puro resultado do que somos, ou éramos. As notícias que te trago jamais poderiam fazer parte de quem você é. Siga em paz, pois tudo aqui já está. 

Ass: Danilo Mendonça Martinho