“Vicissitudes” (26/01/2011)

A vida é simples
Como cheiro de chuva no asfalto
Como cheiro de grama cortada no jardim
Este raiar de Sol tardio
Essa esperança embutida na solidão
Não chega nem a ser palavra
Se sustenta no toque da pele
Nos desejos dos corpos
Suspira de um olhar a outro
Completa-se no abraço

A vida é sutil
Pequenas e breves felicidades
Intensos e findos romances
Entranhas de um dia
Sonhos de uma noite
Segredos escondidos no horizonte
Verdades escancaradas no peito
Um pedaço de lembrança
Um outro a se construir.

A vida é tudo
As aflições de uma alma
O disparar de um coração
O despedaçar de lágrimas
Arriscar o que não se tem
Tudo que se sente
Tudo que acaba

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Um último” (25/01/2011)

Há um suspiro na escuridão
Resquícios de um sentimento
O inevitável encontro com o fim
O gosto gasto do desgosto
Um coração batendo em falso
Contraindo pedaços de dor
As certezas do inexistente
Mas nem tudo é ilusão
O choro exausto
O olhar perdido
A palavra calada
São motivos de esperança
Teu corpo sangra
Há quem ainda sinta

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Beijo” (18/01/2011)

Quero fechar os olhos
Quero teus lábios
Na ponta dos meus
Um movimento irreversível
Uma desistência mútua
Uma paixão única
Quero lhe tirar do mundo
Transformar-te em universo
Questionar a realidade
Abusar da tua imaginação
Quero furtar teu tempo
Desconsiderar teus passados
Com a mão pela nuca
Tomar-te a memória
Quero violar os segredos
Apresentar-lhe a alma
Desconstruir os conceitos
Despir-te dos sonhos
Fazer-te pertencer aos meus braços
E se for incapaz de tudo
Não valerá a pena abrir os olhos

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Visita” (17/01/2011)

Juro, me chamou. Pelo apelido como outras vezes. Fazia tempo que não olhava para trás. Penso que talvez tenha me esquecido demais dentro de mim, sorrisos que não consigo mais achar. Busquei por você sem procurar o passado, apenas a verdade. Uma senhora descia a escada rolante e mais ninguém, nem ali, nem na outra entrada. Insisti por alguns segundos acreditando que logo te reconheceria por trás de algum corpo. Quando continuei meu caminho a voz continuou, mas conclui que minha mente me pregava peças, que não era meu o chamado.
Foi tão natural virar e procurar-te, como se fosse um aviso para cuidar da tua memória. Amedronta-me tudo que posso esquecer. Cicatrizes das quais não vou saber dizer onde cai. Pondero meu caminho e suas negligências inevitáveis, lamento o que neguei e as palavras que calei, mesmo assim foi nestes passos que me construí e se hoje olhei para trás sem medo ou remorsos, é porque encontrei paz. Não espero que aceite, mas entenda. Quem sabe em algum momento ainda existiremos. Hoje, embarquei no trem completamente só, com a certeza de já não pertencer a nós.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Novo século” (16/01/2011)

Recomecei meu horizonte
Refiz o degrade avermelhado
Coloquei o Sol de canto
Algumas nuvens esparsas
Sombreei os contornos
Deixei frestas de imaginação
Abri um sorriso
Respirei mais fundo
Está tudo pronto
Podemos começar de novo
Vai ser um prazer construir-te
Vestida de romance
Desfeita na dor
Com silêncios pontuais
Precisamos levantar um novo dia
Há sonhos que não nasceram
E uma alegria discreta
Esperando o raiar da poesia

É um novo tempo
Ainda sem registro
São novas linhas
Onde cabe o impossível

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Arquivado” (14/01/2011)

Era tarde e escrevia sem perceber, no passado. As palavras deslocadas de seu tempo se comportaram como sempre, apenas sua essência parecia diferente. Perto do fim e de posse de alguma consciência ,virei a página. Salvei, provavelmente pela última vez, o arquivo de 2010. Tornou-se mais um elemento desse cemitério vivo que desde 2004 amontoam-se palavras. As vezes por lá vasculho e até me reconheço, mas jamais me encontro. A vida só cabe no agora, e hoje estou diante essa imensidão que não sei como preencher, muito menos como começar.
Arquivado só me resta esse passo a frente, essa ladeira abaixo. O mais difícil deste primeiro passo é assumir esquecer-se.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Enquanto não acordo” (13/01/2011)

Abri a janela
Procurei tuas novidades
O horizonte ainda é sonho?
A chuva ainda lamenta?
A poesia permanece sem eco?

Mas voltei sem respostas
Venderam-me uma nova era
Uma esperança direto da fábrica
Duas verdades prontas
Um desejo pré-aquecido

Algo ainda nos foge
São vicissitudes de nossa pele
Detalhes dos teus olhos
Assuntos que preferimos calar
Corações que decidem abdicar

Queria que fosse a primeira vez
Onde tudo parecesse possível
Mas não, eu carrego passados
E se podemos ver um bom motivo
É a lembrança de sermos melhores
Ainda podemos ser impossíveis.

Ass: Danilo Mendonça Martinho