“Soneto Alugado” (18/11/2010)

Vendi a preço barato
Um coração em retalhos
Um amor com dívidas

Cedi parte da vida
Um latifúndio de solidão
Uma terra sem perspectiva

Inundaram-me de esperanças
Ancoraram meus sonhos
Já inexisto na tua distância
Sou sombra dos teus olhos

Fui proprietário do nosso romance
Morador de um ideal
Mas hoje sou teu pertence
Inquilino de uma paixão sem igual

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Inconstitucional” (16/11/2010)

São sinais por toda parte
Placas nos impondo as direções
Palavras de consenso ditando ordens
Pessoas profetizando escolhas

E o prejuízo de quem fica sem aviso
Como um cego à procura da faixa de pedestres?
Por que parar apenas onde é permitido
Se o cansaço do caminho vem da contramão?

Eu não sigo qualquer direção
Caminho através, provoco-me a mais
Tenho como limite a liberdade
Por isso não acato sua opinião

Certo que traí o destino programado
Abandono as fronteiras sem aviso prévio
Demito meu algoz e subtraio os valores
Da Constituição que não me prevê

Ass: Danilo Mendonça Martinho / Diogo Canhadas

“Edifício” (28/10/2010)

Arranha, céu
Como arame farpado
Como cair da bicicleta
Sangra
Toda fragilidade da vida
Toda ingenuidade infantil
Cresce
A inevitável revolta
A perda da alergia
Sobrado
Não há o que recupere
Marcas na carne viva
Pulsa
Uma veia de esperança
Uma resistência abandonada
Suspira
Vozes sem eco
Palavras sem par
Sem teto
Desconstruímos a morada
Somos um por andar

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Âmago” (25/10/2010)

Sou todo coração
Pulso lágrimas
Pulso sangue
Involuntário, não inocente
Ataco se for preciso
Ameaço desistir
Dores agudas
Angústias incuráveis
Exijo respeito
Não venha magoar
Não queira me negar
Saio pela boca
Reivindico meu amor
Sem ele, sou nada

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Inferno Astral” (19/10/2010)

Cansei dos olhares
As alegrias já se foram
Tudo é efêmero
A começar pelas dores
Incisivas e pontuais
Nem sei por onde sofro
Entranhas ou coração
As felicidades que passam
O corpo que permanece
O peso constante
O olhar inerte
Pela janela crescem
As melancolias de outra estação
Logo escorrem pelo rosto
Se não puderem regar as flores
Ao menos escondam todo resto
Suspiro junto as manhãs
Também cansadas das promessas
No mínimo foi a esperança
Que deixou a porta aberta
Mas o que há lá fora
Que já não tenha me tomado por dentro.

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“Livre” (07/10/2010)

A liberdade pede desapego
Eu lhe esqueço
Dissipo em palavras
Meus últimos apelos
Lhe deixo

A liberdade é recomeço
Abandono os conceitos
Palavras de outrora
Rancores do meu peito
Me despeço

A liberdade é permissão
Almejar uma nuvem
Derramar no horizonte
Uma felicidade cadente
Nos encontramos

Ass: Danilo Mendonça Martinho

“15 minutos” (07/10/2010)

Em 10 segundos faço um extrato
Impressos na paisagem cotidiana
Simples códigos binários
Um par, dois quaisquer
Mas na verdade somos nós
Na minha ausência pode ser vós
Mas caso seja apenas tu
Deixo então um recado
Mas preciso de um minuto

Guardo duas frases clichês
Comigo uma saudade de você
A distância que cria o só
A solidão que nos faz vivos
No caso de faltar estrelas
Concedo alguns pedidos
Só não me peça o tempo

Não sei dizer adeus
Pouparei os últimos instantes
Eles merecem o improvável
O impulso de um abraço
Seguro neste momento
Toda verdade entre nós
Quem precisa de 15 minutos?

Ass: Danilo Mendonça Martinho